A tradição indiana é uma das formas da Philosophia Perennis e, como tal, incorpora aquelas verdades universais às quais nenhum povo ou época pode reivindicar posse exclusiva. O hindu está, portanto, perfeitamente disposto a que suas próprias escrituras sejam utilizadas por outros como “provas extrínsecas e prováveis” da verdade que também conhecem. O hindu argumentaria, além disso, que é somente nessas alturas que qualquer verdadeiro acordo entre culturas diferentes pode ser efetuado.
Durante muitos anos foram coletadas de fontes orientais e ocidentais passagens paralelas nas quais doutrinas idênticas foram enunciadas da forma mais próxima possível dos mesmos termos e, frequentemente, inclusive, dos mesmos idiomas e fazendo uso de palavras etimologicamente equivalentes; não de modo algum com a intenção de demonstrar quaisquer “influências” literárias, mas apenas para mostrar que as próprias doutrinas são cognatas no mesmo sentido em que os étimos, por exemplo, do grego e do sânscrito, são cognatos, ou seja, de origem comum.
Existe apenas uma mitologia, uma iconografia e uma verdade, a de uma sabedoria não criada que tem sido transmitida desde tempos imemoriais.
Muitos de nós não estão ainda, ou já não estão, cegos pela ambição de ser, em qualquer sentido, rivais, de converter a outros aos nossos modos de pensar, ou persuadir a adoção de nossos padrões sociais; a esperança é apenas que o mundo possa recuperar seu próprio senso e retornar àquela “herança” de verdade que deve ser chamada de direito de nascença de toda a humanidade, se for verdade que, como diz Santo Ambrósio, “Tudo o que é verdade, por quem quer que tenha sido dito, é do Espírito Santo”, a quem todos igualmente reconhecemos quando admitimos uma paternidade divina, e a quem, nas palavras de Santo Agostinho, “Toda a raça humana confessa ser o autor do mundo”.
O cristão é convidado a participar de um simpósio (de religiões) — não a presidir — pois há Outro que preside invisível — mas como um entre muitos convidados.
As religiões podem e devem ser muitas, cada uma sendo um “arranjo de Deus”, e diferenciadas estilisticamente, uma vez que a coisa conhecida só pode estar no conhecedor segundo o modo do conhecedor, e portanto, como se diz na Índia, “Ele assume as formas que são imaginadas por Seus adoradores”, ou como Eckhart expressa, “Eu sou a causa de que Deus é Deus”. E é por isso que as crenças religiosas, tanto quanto uniram os homens, também os dividiram uns contra os outros, como cristãos ou pagãos, ortodoxos ou hereges. De modo que, se for para considerar qual pode ser a tarefa prática mais urgente a ser resolvida pelo filósofo, só se pode responder que esta deve ser reconhecida no controle e revisão dos princípios da religião comparada, o verdadeiro fim da qual ciência… deveria ser demonstrar a base metafísica comum de todas as religiões e que as diversas culturas estão fundamentalmente relacionadas umas com as outras como sendo os dialetos de uma linguagem espiritual e intelectual comum; pois quem quer que realize isso, não mais desejará afirmar que “Minha religião é a melhor”, mas apenas que é a “melhor para mim”.